segunda-feira, dezembro 29, 2025

Anormal

 Não tive quem me ensinasse poesia 
Mas sempre tive ideia sobre o que lia
E ninguém me ensinou a desenhar 
Só que tive o meu rosto para começar 

Tudo o que fiz foi para me expressar
Fosse indignação, dor ou melancolia 
Acho que o que fiz foi sempre por amor
Houve já quem me chamasse de poesia

Cometi o erro de não me encaixar 
Em regras, estudos, academias
Nunca fui lá me subjugar
Livrar-me da minha crua selvajaria 

Continuo de rompante em repente 
Tão sempre espontaneamente 
Como se a escrita me pudesse salvar
De tanta agonia e desespero me afogar

Não sei se a minha arte tem esse cheiro 
Mas espero que não e que seja musical
Para que embale os ouvidos e os olhos
De quem ainda gosta de mim anormal 


domingo, dezembro 28, 2025

 Vi o infinito nos olhos de alguém que não acredita em infinito.

Vi o amor absoluto no coração de alguém que não acredita em absolutos e não sabe o que é o amor.


sábado, dezembro 27, 2025

O Mundo Sob Influência

O mundo aprende a pensar por imitação
Repete frases como quem reza sem fé
Ídolos de algoritmo ditam direcção
E a dúvida é um defeito que não dá cachet

Vendem força em cápsulas, verdades em série
Raiva bem treinada, ego em formação
Chamam “liberdade” à mais dócil miséria
Pensar igual virou sinal de ambição

Tudo é palco, método, sucesso imediato
Complexidade cansa; não dá 'likes' nem perdão
Entre o grito fácil e o silêncio sensato
Escolhe-se o ruído com convicção

Mas ainda há quem veja fora da tendência
Quem prefira o peso de não pertencer
Num mundo sob influência
Pensar é um acto de resistência

O Mundo Sob Influência I


O mundo ajoelha sob luzes artificiais
Segue vozes sem corpo, sem verbo, sem razão
Ídolos de vidro, promessas digitais
Vendendo atalhos à alma em suave prestação

Reis sem reino erguem tronos de opinião
Coroas feitas de 'likes', ouro falso a reluzir
Pregam força onde há medo, fé onde há negação
E chamam “despertar” ao acto de repetir

Tudo é curso, método, chave-mestra
Tudo é palco, performance e pose vazia
A dúvida é crime, o silêncio é fraqueza
Pensar devagar virou heresia

Há 'coachs' de nada, profetas do eco
Machos de cartilha, raiva bem vestida
'Red pills' servidos em copos de ego
Como se o mundo coubesse numa ferida

A dor vira marca, a verdade, tendência
A complexidade cansa, não dá lucro, não vende
Prefere-se o grito à lenta consciência
E a frase feita ao que realmente se entende

Mas sob o ruído ainda há chão
Ainda há palavras que não pedem aplauso
Ainda há quem pense como acto de insubmissão
E quem diga “não” sem precisar de um palco

Porque o mundo sob influência esqueceu-se de ser
Mas nem todo o espírito aceita molde imposto
Há quem escolha ver, mesmo quando dói ver
E salvar o significado do que ainda é nosso

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Derradeira alegoria

 Depois de tudo 
Talvez 
Quando me procures
Eu já não esteja 
Neste mundo infernal 
E serei mudo
De vez
Sem que me cures
Do meu eterno mal

Tu farás o teu entrudo
Embriaguez 
Se calhar até atures
Alguém que seja
Muito normal 
E olharás por um canudo 
O que agora lês
Escrito em pladures
Organizando o tal

Se neste ludo
Não houver duas sem três 
E lá em nenhures
Tiver ligação que te beija
De forma natural
Vou fazer de tudo
Para que o que vês
Nada segures
Mas que eu te veja
E sintas o nosso amor imortal 

domingo, dezembro 21, 2025

No silêncio da noite

 Às vezes, ainda sinto saudades tuas de tal forma que o meu coração dilacera o peito e faz-me suspirar guturalmente. É quase como se o coração saísse em turbo na tua direcção, lá para o outro lado do Mundo, atravessando todo o Oceano.

"Existirmos, a que será que se destina?", pois quando tu...

quinta-feira, dezembro 18, 2025

O misógino encapotado

 O misógino encapotado tem muitas amigas mulheres e é capaz de dizer em alto e bom som que é feminista porque tem mãe e irmãs. Ele é o verdadeiro artista. Consegue convencer o mundo inteiro que qualquer falha ou falta é devido à sua suposta jovem idade, imaturidade e água benta. Ele até tem muitas vezes nome santificado, ou de boas famílias. 

O que o misógino encapotado esquece de versar a plenos pulmões é que gosta de se sentir desejado por várias e ter amantes em todo o lado. Que o corpo delas, ou apenas um sorriso breve, já as torna objecto de desejo e posse, pois se elas se põem a falar para eles já é demais e logo soltam um bocejo. Eles só têm grupos de verdadeiros amigos homens, que com eles fraternidades formam. Eles fazem questão de usar as mulheres a seu bel-prazer e só enchem a boca de elogios se souberem que vão colher. São capazes de admitir anos depois que sempre se sentiram atraídos e tiveram uma paixonite e elas se não tiverem um sentido de alerta entram no engodo porque, afinal, sempre gostam de se sentirem desejadas. 

Aos amigos dos homens tudo é permitido no final do dia, às mulheres nem tanto. Eles escutam os homens e fingem escutar as mulheres. Ao pé de um grupo delas, em vez,  são as coqueluches, os servidos. E assim pensam que podem arranjar perfeitos maridos. O que desconhecem é que eles não amam mulheres e também porque no fundo sentem um rancor seminal porque um dia tiveram de obedecer às suas mãezinhas. Tão prestimosas e também mandonas, enganadas, as coitadinhas. É tudo isso que o misógino encapotado é primordialmente: alguém que odeia secretamente alguma vez ter tido de depender e ter tido como dona uma mulher. Ter-se sentido um escravo, ter sentido esse garrote ao pescoço, esse grilhão, essas algemas no coração, quebrado por uma Eva em desilusão. 

 O amor é um vapor
que se instala nas narinas
de quem inspira
depois da paixão 
ter terminado 

quarta-feira, dezembro 17, 2025

Eles não sabem o que é Lisboa

 Dizem por aí 
Que a gentrificação é boa
Que o resto é tudo sujo
A descaracterizar Lisboa
Pois eles não sabem que o sonho
Começou com a Severa cigana
Os mouriscos em Alfama
Os namoricos mundiais dos tugas
Bem longe dos santos e manjericos
Deram de fuga do país 
Para lá fora se tornarem ricos
Mesmo assim chamam-se de raíz 
Porque com a verdade se vêem aflitos

Eles não sabem nem sonham
Que a cidade é de quem a habita
Que o concreto é a selvajaria 
Tão obscena quanto a vida
De quem mente e usurpa o alheio

Para quem nasceu, cresceu e morreu
Num rio que vêm agora dizer
Que afinal nunca foi seu
As águas cheiram só mal
Num berço que sempre foi esgoto
Aberto debaixo do céu 

com todas as luzes, as supostamente boas e más. o resto são as pobres máscaras a que as pessoas foram subjugadas, programadas para servirem, quase insuspeitas, os propósitos obscenos de quem manipula o mundo e as pessoas como suas rentáveis marionetas. 

pensar por si próprio, observando, analisando; ir à origem, questionar tudo, como Da Vinci; não obedecer, não encaixar, nem pertencer, ser fiel ao que se é e ao que se sente, nunca comprometendo os seus valores de ética, verdade e justiça. actuando para ser uma melhor versão a cada dia, a fim de dar o exemplo, colocando a luta pelo bem maior comum  acima de qualquer interesse egóico, é ter a consciência necessária de que somos apenas futuros cadáveres que brevemente foram capazes de estarem presentes no real e genuíno que é ser humano. 

mais uma quebra neste período de hibernação, desta vez para dizer "adeus" ao que foi um ano de muita verdade para contrariar as falsidades todas. 👌🏽💓

#adeus2025

(legenda do último post c minha cara no insta)

 Às vezes fico parva, pensando em como é possível que alguém com os problemas e limitações que tenho, quase sem fazer nada, foi-me acontecer tanta coisa doida, completamente impensável. A poesia desta música (num reels Bethânia a cantar Explode Coração) fez lembrar disso tudo. Como amei tanto toda a gente, toda a natureza, toda a beleza, todo o sacrifício, toda a redenção, toda a superação, tudo de incrivelmente bom que os humanos são capazes ao contrário das suas crueldades e e destruições.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

O Luto

 O luto é um desalento 

Que se instala e não sai

Tão cedo

Se foram 

No redemoinho que cai

Sobre a nossa cabeça 

E sob os nossos pés

Só fica um tormento 

Que volta de lés a lés 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

sónia=sofia=sophos=sabedoria

 Ela tem nome de conhecimento 
Mas ninguém sabe quem ela é
Eu sei que ela é um bocado azul
Revolucionária desde sempre 
Com o maior dos corações aberto 
E depois de lutar contra todos os infernos 
Ela descansou no breu

Eles não a conhecem 
Mas dizem que ela sou eu
 Quando ele me matou 
Eu não sabia 
Que me tornaria eu
Como nunca tanto fui

domingo, dezembro 07, 2025

Roleta

 Eu paguei para ver
Sempre foi assim 
Fosse confiança ou desesperança
Eu queria inverter a balança 
Fazer o amor morrer
Com as desilusões de ti

Pior que consegui 
Infelizmente nada surpreende
É como se estivesse a ver um filme 
Que já sei como se desenrola 
Como a acabar a pedir esmola 
Só para ter uma última chance 
De ganhar crédito 

A vida é um jogo de apostas
E a mão com que jogas
Não é aquela que mostraa

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Pessoas que contam passos

 podómetro 

dá licença qts passos

passo a passo 

um de cada vez

é preferível 

do que sprints

a mostrar estupidez 


Quantos passos até à chegada?

Ou será que temos de voltar à partida?

De ser verdadeiro

 Ninguém conhece ninguém mesmo. A esta altura da vida, infelizmente, contínuo a ser um bocadinho surpreendida e chocada com a capacidade de ódio que pessoas têm. Isto tudo porque não conseguem enfrentar as próprias emoções e responsabilidades e têm de encontrar bode expiatório para o ódio delas. 

As pessoas também não se conhecem umas às outras, porque estão todas a representar papéis, cheias de máscaras, daí que não dá para conhecer alguém se ninguém é verdadeiro. 

Eu que sou a apelidada de sem filtros, honesta demais, sensível demais, pespineta, etc., sou das únicas pessoas que conheço que são abertas e completamente como são na verdade. Sofro agressões dos outros por causa de ser quem sou em todas as minhas vertentes, mas ao menos não sou falsa para mim mesma e para os demais. 

 Não carrego nada mais 
Sou receptáculo oco
Casca
Tudo feito num oito
Que não é o infinito ♾️ 
Senão umas névoas
Uns resquícios de sonhos 
Um par deles risonhos
Que foram perdendo gás

Etéreos

 Habitamos o éter
Somos um intervalo
Preenchemos o vazio
Entre a matéria escura
Que raia o cosmos

Somos seres etéreos
Alguns de nós 
Chegamos a flutuar 
Na nuvens velejantes
De um horizonte estrelado

Tens um tom magoado 
Eu sei, porque foste roubado 
Por mim quando enlouqueci 
Momentaneamente 
Por ti
E capturei o teu coração 

Irmão da dor, paixão 
Estamos órfãos da ternura
Ela não é a minha outra sobrinha 
Ela foi-se embora e pouco sobrou
Mas hoje o cordão vibrou

terça-feira, dezembro 02, 2025

 Os amantes crucificados não devem nada ao passado
E os meus óculos têm tendência para descair mas eu resisto a olhar sobre eles (e ver tudo desfocado).

Boa noite, durmam bem

 Rasgar o peito 

Todos os dias 

Deitada no leito

Pensando em vidas

Que não vivi

Que deixei irem

Que quero tanto dizer

Aos meus amores 

Que não mais vi

Que estou sempre 

A pensar em vocês

DGP, os três ❤️

Um amor distante sem fim

 Ainda hoje guardei as tuas fotografias. 
Vejo-te de novo e toda a tua psicose e, ainda assim, é a ti que eu amo.
Nada pode extinguir este fogo.
Talvez um dia, se vieres lá de longe, se houver finalmente a nossa elevação, possamos raiar aquela supernova de proximidade e contê-la num abraço mortal. Até lá o fogo não acaba. É fogo que Prometeu roubou e não devolveu; quem tem pago o preço, em todos os órgãos, sou eu.

Será que sabes que ouvi de madrugada, há anos, aquela canção a pensar em ti com os olhos marejados constatando que o meu coração não vale nada? Abri-o ali às janelas de todos. Foi um acaso displicente. Sofri como uma condenada por ter caído numa paixão armadilhada, neguei, lutei, contra mim mesma perdi.

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Que tonta!

Só restou vergonha, pelas figuras tristes todas que fiz, toda tonta por um amor inexistente. #mortificadaadaeternum🤦🏽

Porque é que o amor nos tira a racionalidade? Para nos marcar e nunca mais esquecermos que amámos desenfreadamente alguém nesta vida. Deve ser, deve 🤦🏽🤦🏽🤡


(mds, cmo eu te amei!)

 Não é por não vos ver que vos vou esquecer, infelizmente, até parece que é contraproducente, precisamente. 

A morte em Pessoa

 O Pessoa que se fod@, pronto!
Ia republicar o meu Chaplin-Pessoa a ler o A morte é a curva da estrada, até cheguei a fazê-lo mas apaguei. 
Foi o meu poeta favorito em tempos, durante muito tempo, em que eu tinha poeta favorito. 

Hoje dei por mim a pensar que até Pessoa ele estragou-me.
Pensei agora mesmo, entretanto, no início desde escrito, que Pessoa era um covarde e que bebia que nem um texugo. Eu, ao menos, resisti a essas coisas: não fui completamente cobarde, pelo contrário, até cheguei a declarar a minha paixão assim que a reconheci com certeza e a admiti. Demorou, fez muita porcaria, deu muita mossa, mas eu não fui cobarde como Pessoa. Amei desabridamente, mas é, e fiz, como dizia Camões, que os amores devem ser clamados. 
Eu disse muito a cada um deles. Embora não tenha dito nem um milionésimo do que escrevi por causa deles. Dele, mais. 
Mas, ora, (onde é que nós íamos?) que se fod@ Pessoa, é isso. Temos pena. Ou sei lá. Nada importa nem vale a pena.