Sunday, January 26, 2014

Sem título

Nunca o vira com tamanhos olhos de ver. Talvez eu tenha chegado à idade e um certo acumular de experiência, que me permitiram enxergar como as coisas eram além do visível, do imediato, do que todos os outros em redor, em ambiente de festa, viam.

Ele pegou na bebé, como tinha pegado em tantos outros e fez as mesmas brincadeiras de sempre que resultavam em gargalhadas sonoras das crianças e em espanto de quem via como ele tinha tanto jeito com elas. No entanto, desta vez percebi que ao pegá-la e ao brincar com ela ele tentava à força afastar todas as coisas más que lhe tinham acontecido, esperava - com a esperança de quem está há muito no deserto e precisa de encontrar água - que todas as memórias das suas dores e das suas mágoas se dissolvessem com a força do riso.

Eu, por outro lado, nunca consegui não ver que os bebés vêm para um mundo pejado de intolerância e massacre e que ninguém escapa ao sofrimento, e por isso olhava-os com a pena devida e merecida que lhes pertencia por serem, então, inocentes.

Quando se tem noção dos absurdos que existem ao longo da vida das pessoas entende-se que não havendo qualquer sentido para todos esses aspectos não há grande coisa que se possa fazer. O próprio acto de se pegar num bebé torna-se indiferente para a engrenagem das coisas e não há que haver mais tristezas ou alegrias, pois ora tudo é, ora tudo não é e nós vivemos no meio disso sem haver norte possível.
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